7 – Supresas
Estava tudo escuro.
Antes mesmo de abrir os olhos, Vice já sabia o que estava acontecendo. Estava
pendurado pelos braços, por algemas e correntes de ferro, enquanto seus joelhos
arqueavam sem força pra frente no chão. Sentiu cheiro de sangue... Não o seu,
pois não havia dor pela qual ele pudesse ter saído, mas ainda sim, era sangue.
Não sabia quanto tempo tinha apagado, embora fizesse uma idéia, pelas sensações
do seu corpo. Mais que uma semana, com certeza, porém menos que três. Assim que
ia abrir os olhos pra examinar de fato aquela cela fria e úmida, ouviu um
barulho de correntes, e achou melhor fingir dormir, afinal, qualquer atenção
lhe era indesejada, a situação não precisava piorar.
- Gork, abra a
cela.
Barulho de chaves
enferrujadas em uma fechadura de ferro velho e amargo. Era na sua cela.
- Acorde, vassalo de
Astrain.
Silêncio.
- Acorde, vassalo de
Astrain.
- É Callah-Astrain pra você, quem quer que
seja.
Abriu os olhos.
Estava diante de um homem. Era alto, magro, pálido. Tinha um rosto tão jovem
quanto de Astrain, porém seus olhos carregavam Eras de terror.
- Pois bem. Levante
tua cabeça e encare a morte.
- Se fores tu minha
morte, então que venha.
De cabeça erguida,
Vice viu o manto de escuridão que cobria aquele ser como se fizesse parte
dele... viu a cruz prateada e toda inscrita em vermelho... lembrou de seus
artifícios na floresta, e concordou. Era a morte.
- Ah... tua fibra é
deveras... persistente. Exatamente quem eu desejo retirar do teu querido Callah.
Sem mais, levantou a
cruz na altura do rosto de Vice. Na
prata, havia arabescos em vermelho vivo em contraste com o pálido...
- Sou um Vampiro,
homem. Um Antigo. E agora pelo meu sangue há muito seco, eu te amaldiçôo.
Seus olhos
tornaram-se opacos, como se não houvesse essência dentro deles, no que as
palavras da cruz brilharam. Brilharam tão intensamente que saíram da prata, e
penetraram o próprio ar ao redor. A cela se tornou mais escura, fria, com um
toque de desespero no ar. E através da escuridão a luz sanguínea atravessou o
espaço até começar a se enrolar no tórax e no braço esquerdo de Vice, quente
como o próprio Inferno...
E quando o maior
estrondo que Vice já ouvira ecoou em seu peito, enquanto alguma ala da
construção em que eles estavam, aparentemente explodiu, não houve reação alguma
dos dois, tão abrupta fora a interrupção.
Os dois olharam pra
cima, quando rugidos encheram os aposentos, junto com um pouco de poeira e um
vento gelado. Goblins gritavam em sua língua, chamando o Vampiro. Ele
respondeu, calmo como um abismo, e virou-se de novo para Vice:
- Salvo pelo gongo,
como dizem. Aproveite o pouco que lhe resta de sanidade, parece que tenho
assuntos à resolver. Até mais!
E saiu, sutil e
ininterrupto, por cima de uma poeira que parecia não tocá-lo.
Ainda atordoado com
os últimos acontecimentos, Vice demorou um ou dois instantes para se recompor e
perceber que estava sozinho em meio a baderna que ocorria acima. Não teria
tanta sorte duas vezes.
Seu espírito de ferro
reascendeu, e ele lembrou do que havia esperando seu retorno... o amigos,
Astrain, Hauru, Gaublant... toda a glória de Garimond, onde tinha passado sua
vida à proteger as muralhas que lhe eram tão caras... e sua esposa, que só de
lhe aparecer na memória, o fazia outro homem.
Sim, pensando claramente, era óbvio que não iria falhar agora. Assim que
ordenou os pensamentos, pessoas passaram correndo por sua cela, sorreteiramente
e quando perceberam alguém ali, voltaram. Eram 3 homens de aspecto acabado e
deprimente, parecendo famintos e sem esperança. Assim que o primeiro viu as
algemas, pesar caiu-lhe sobre o rosto. Sua voz clara estava fraca, mas ainda
guardava um pouco de nobreza:
- Amigo! Que
infelicidade a sua! Está algemado na única chance de fuga que temos há 7 anos!
É com tristeza que lhe digo, não possuímos a chave, e nem tempo para buscá-la!
E por mais estranho
que isso parecesse, o homem bronzeado, com os cabelos no rosto e as tatuagens
recentes na pele, soltou uma risada alta e orgulhosa, enquanto erguia o corpo
sobre os próprios pés.
- Então que
felicidade a minha! Pois há muito que devo fazer ainda, além de alguém pra quem
devo voltar, e não é este aço indigno que me impedirá!
E retesando todos os
músculos do torso, numa arrancada violenta, puxou os braços para frente, que
arrancaram bruscamente a junção das correntes na parede, deixando-as caídas,
penduradas em seus braços, em meio à poeira da pedra quebrada.
- Por onde, agora?
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