domingo, 22 de julho de 2012

Ópera de Lâminas {cap. 7}


7 – Supresas
  Estava tudo escuro. Antes mesmo de abrir os olhos, Vice já sabia o que estava acontecendo. Estava pendurado pelos braços, por algemas e correntes de ferro, enquanto seus joelhos arqueavam sem força pra frente no chão. Sentiu cheiro de sangue... Não o seu, pois não havia dor pela qual ele pudesse ter saído, mas ainda sim, era sangue. Não sabia quanto tempo tinha apagado, embora fizesse uma idéia, pelas sensações do seu corpo. Mais que uma semana, com certeza, porém menos que três. Assim que ia abrir os olhos pra examinar de fato aquela cela fria e úmida, ouviu um barulho de correntes, e achou melhor fingir dormir, afinal, qualquer atenção lhe era indesejada, a situação não precisava piorar.
   - Gork, abra a cela.
  Barulho de chaves enferrujadas em uma fechadura de ferro velho e amargo. Era na sua cela.
  - Acorde, vassalo de Astrain.
 Silêncio.
  - Acorde, vassalo de Astrain.
  - É Callah-Astrain pra você, quem quer que seja.
 Abriu os olhos. Estava diante de um homem. Era alto, magro, pálido. Tinha um rosto tão jovem quanto de Astrain, porém seus olhos carregavam Eras de terror.
  - Pois bem. Levante tua cabeça e encare a morte.
  - Se fores tu minha morte, então que venha.
  De cabeça erguida, Vice viu o manto de escuridão que cobria aquele ser como se fizesse parte dele... viu a cruz prateada e toda inscrita em vermelho... lembrou de seus artifícios na floresta, e concordou. Era a morte.
  - Ah... tua fibra é deveras... persistente. Exatamente quem eu desejo retirar do teu querido Callah.
  Sem mais, levantou a cruz na altura do rosto de Vice.  Na prata, havia arabescos em vermelho vivo em contraste com o pálido...
  - Sou um Vampiro, homem. Um Antigo. E agora pelo meu sangue há muito seco, eu te amaldiçôo.
  Seus olhos tornaram-se opacos, como se não houvesse essência dentro deles, no que as palavras da cruz brilharam. Brilharam tão intensamente que saíram da prata, e penetraram o próprio ar ao redor. A cela se tornou mais escura, fria, com um toque de desespero no ar. E através da escuridão a luz sanguínea atravessou o espaço até começar a se enrolar no tórax e no braço esquerdo de Vice, quente como o próprio Inferno...
  E quando o maior estrondo que Vice já ouvira ecoou em seu peito, enquanto alguma ala da construção em que eles estavam, aparentemente explodiu, não houve reação alguma dos dois, tão abrupta fora a interrupção.
  Os dois olharam pra cima, quando rugidos encheram os aposentos, junto com um pouco de poeira e um vento gelado. Goblins gritavam em sua língua, chamando o Vampiro. Ele respondeu, calmo como um abismo, e virou-se de novo para Vice:
  - Salvo pelo gongo, como dizem. Aproveite o pouco que lhe resta de sanidade, parece que tenho assuntos à resolver. Até mais!
  E saiu, sutil e ininterrupto, por cima de uma poeira que parecia não tocá-lo.
  Ainda atordoado com os últimos acontecimentos, Vice demorou um ou dois instantes para se recompor e perceber que estava sozinho em meio a baderna que ocorria acima. Não teria tanta sorte duas vezes.
  Seu espírito de ferro reascendeu, e ele lembrou do que havia esperando seu retorno... o amigos, Astrain, Hauru, Gaublant... toda a glória de Garimond, onde tinha passado sua vida à proteger as muralhas que lhe eram tão caras... e sua esposa, que só de lhe aparecer na memória, o fazia outro homem.  Sim, pensando claramente, era óbvio que não iria falhar agora. Assim que ordenou os pensamentos, pessoas passaram correndo por sua cela, sorreteiramente e quando perceberam alguém ali, voltaram. Eram 3 homens de aspecto acabado e deprimente, parecendo famintos e sem esperança. Assim que o primeiro viu as algemas, pesar caiu-lhe sobre o rosto. Sua voz clara estava fraca, mas ainda guardava um pouco de nobreza:
  - Amigo! Que infelicidade a sua! Está algemado na única chance de fuga que temos há 7 anos! É com tristeza que lhe digo, não possuímos a chave, e nem tempo para buscá-la!
  E por mais estranho que isso parecesse, o homem bronzeado, com os cabelos no rosto e as tatuagens recentes na pele, soltou uma risada alta e orgulhosa, enquanto erguia o corpo sobre os próprios pés.
  - Então que felicidade a minha! Pois há muito que devo fazer ainda, além de alguém pra quem devo voltar, e não é este aço indigno que me impedirá!
  E retesando todos os músculos do torso, numa arrancada violenta, puxou os braços para frente, que arrancaram bruscamente a junção das correntes na parede, deixando-as caídas, penduradas em seus braços, em meio à poeira da pedra quebrada.
  - Por onde, agora?

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